sábado, 30 de janeiro de 2010

Bototerapia!

Um de meus sonhos era conhecer o boto cor-de-rosa. Pesquisei muito e vi que era possível até nadar com eles! O serviço é oferecido pelo Ariaú e pelo Anavilhanas Lodge, dois hotéis de selva de luxo super chiques e caríssimos. No Ariaú tem até o serviço de Bototerapia, um tipo de TAA (terapia assistida por animais) para realizar fisioterapia em crianças com necessidades especiais. Pensei em ficar ao menos um dia em um deles e conhecer os botos, mas a brincadeira não sairía por menos de 800 dólares (segundo o site dos hotéis e de operadoras de turismo). Magoei... mas meus olhinhos brilharam quando vi um post no fórum dos mochileiros. Uma moça disse que em Novo Airão tem um ex-restaurante flutuante, de onde é possível brincar com os botos! O Flutuante da Marilda, como é conhecido, “não cobra nada”, mas para entrar lá é necessário comprar uma porção de sardinhas (para alimentar os botos) por 15,00. Por isso resolvi ir para lá.

A primeira vez que os vi foi meio que por acaso. Chovia muito e no final da tarde, fui dar uma volta pela cidade e não levei biquini. Perdida, andando em círculos (para variar) acabei parando em frente ao flutuante e aproveitei para bisbilhotar.

- Você que é a Marilda? E elas são suas filhas, que domesticaram os botos? Prazer!!

A mulher se espantou. Perguntou se eu tinha algum parente que a conhecesse, e quando eu disse que não, ficou assustada. – Ah, eu li sobre você na internet!
“Esse povo da internet fala demais! Humpf!”

Preciso ser mais discreta da próxima vez...

Pedi pra dar só uma olhada, ela deixou... quando estava chegando, um deles apareceu. E depois vários! Fiquei em choque. Eles sorriam pra mim! Era como se estivessem dizendo: “páre de frescura, deixe de sofrer, estamos aqui e te amamos” kkkk... sei lá, viajei... só por isso já valeu a viagem toda!

No dia seguinte, não perdi meu tempo e voltei lá, desta vez para brincar com eles. Só que não foi tão simples... precisei me livrar de algumas frescurites internas!
Venci o nojo de sentar na bancadinha de madeira (que estava cheia de limo) e o medo de escorregar e cair no Rio Negro (não sei nadar rs...) Também estava morrendo de medo dos botos, e o meu tratamento de choque foi receber algumas mordidas e focinhadas (eles batem o bico nas pessoas com tudo). Até arrisquei entrar na água (com um colete nada seguro), mas não fiquei mais que 2 minutos.

Tudo isso valeu a pena! É só colocar a sardinha no rio que eles aparecem, e é possível pegar neles, brincar... Se você entrar na água, eles vêm aos montes. É uma verdadeira terapia passar a tarde com eles!


Eles estão sorrindo!

Olha a focinhada!






Certo dia tive que esperar pra entrar. Um cara me explicou que tinha um povinho do Anavilhanas Lodge nadando com os botos. E que o hotel cobra U$300 dos turistas para conhecer os botos e os levam ao flutuante da Marilda!! Que absurdo!!

Tinha um cara ao meu lado que parecia gringo. Pensei em puxar assunto, mas deu um branco... Não falo inglês, mas ele sempre me atrapalha quando começo a falar espanhol! Acabo colocando algumas palavras no meio e confundo tudo... e não estava a fim de pagar mico falando portunhol. Enquanto ensaiava um diálogo na minha cabeça, ele começou a conversar. Em português.

Contou sobre sua viagem; estava há 3 meses mochilando. Foi pra Venezuela e voltou pelo norte do Brasil, e depois dali, iria para o Belém e voltaria pra sua cidade.
- E de onde você é?
- “De São Paulo”!

Fala sério...

Conheci uma moça na pousada e mais um paulista, na saída do flutuante. Combinamos de rachar um passeio de voadeira pelas Anavilhanas (o 2º maior arquipélago fluvial do mundo). Entramos no igarapé e o canoeiro explicou tudo: o porte das árvores, a vida animal, o uso dos elementos da natureza para produção de cosméticos e medicamentos... Era um homem tão simples, mas tão inteligente! No meio de tanta informação, pensei em como eu havia complicado minha vida à toa. Há 1 semana eu mal saía de casa por me sentir a mais feia das criaturas. E lá estava eu: com a mesma roupa há dias, com o cabelo fuá e o único objeto de adorno era um brinco de penas, que comprei em Manaus (os que levei, dispensei). E nunca me senti tão bem.

Toda a minha vida foi criteriosamente controlada e elaborada, com listas de planos, prazos e objetivos a alcançar. A maioria deles eu conquistei, mas depois descobri que nem fizeram diferença, não agregaram nada a mim.

A gente trabalha com toda a sabedoria, conhecimento e inteligência para conseguir alguma coisa e depois tem de deixar tudo para alguém que não fez nada para merecer aquilo. Nós trabalhamos e nos preocupamos a vida toda e o que é que ganhamos com isso? Tudo o que fazemos na vida não nos traz nada, apenas decepções e desgostos.(Eclesiastes 2:21-23)
Percebi que a conquista de qualquer bem material jamais me proporcionaria aquilo que estava sentindo. E poderia ter descoberto isso há muito tempo se tivesse seguido meu coração. Eu só precisava descobrir o que é importante para mim, independente da opinião alheia. E correr atrás.


Trecho do passeio que fiz pelas Anavilhanas.

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